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Flexibilização

17.05.11
A minha vida não é exemplo para ninguém. Tenho um marido que trabalha uma média de 14 a 16 horas por dia (e trabalha mesmo, não fica por lá a ver o ar passar-lhe à frente) e que, quando chega a casa, conta os minutos para se poder ir deitar. Portanto, não pode fazer muito em casa, nem eu lho posso exigir.

No meu caso, a flexibilização é a solução para os meus problemas. Porque agora estou em casa e asseguro bem as coisas (e sim, tenho tempo para ter hobbies), mas quando for trabalhar vai ser complicado. Vou viver a contra-relógio, sempre com um tic-tac a martelar-me a cabeça e a dizer-me que tenho que me despachar para ir buscar os meus filhos, que tenho que me despachar para fazer o jantar, que tenho que me despachar a passar a ferro, que tenho que me despachar a deixar prontas as coisas do dia seguinte, que tenho que me despachar a dormir, que tenho que me despachar de manhã, que tenho que me despachar a despachar os miúdos, que tenho que me despachar a deixá-los, que tenho que me despachar a chegar ao trabalho, que tenho que despachar assuntos, que tenho que me despachar a almoçar, se quero despachar-me a horas de começar tudo isto outra vez. E só de escrever fiquei cansada.

Ninguém gosta de trabalhar angustiado. Ninguém gosta da sensação de passar a vida sem motivação, a contar os minutos para estar a milhas dali, noutro lugar qualquer. Ninguém gosta de ser infeliz.

Uma empresa onde as pessoas trabalham com vontade, porque sabem que são respeitadas enquanto pessoas e não apenas enquanto produtoras de qualquer coisa, é uma empresa mais bem sucedida, onde as pessoas se sentem bem, onde sentem que são recompensadas pelas horas, pelo esforço que dão à empresa.
No fundo, é fácil motivar as pessoas. Basta dar-lhes o que é seu por direito. Um trabalho não é um favor que a empresa faz ao empregado. É uma dinâmica de troca: a empresa dá e recebe, o empregado dá e recebe. Os trabalhadores não têm que sentir que lhes está a ser feito um favor quando usufruem dos seus direitos, sejam eles quais forem. E as empresas também não têm que sentir que o empregado que cumpre horários, que cumpre o que lhe pedem e que executa as suas tarefas está a fazer um favor. Não está, é pago para isso.

Outra coisa: instituiu-se que esta coisa de trabalhar das nove às seis é porreira. Uma estupidez. Então um país que tem 900km de costa marítima (logo, praias), que tem bom tempo durante metade do ano, acha que este horário-tipo faz alguém feliz? Os nórdicos, como têm aquela condição de viverem de noite nove meses por ano, resolveram - e bem - adaptar o trabalho a isso. Trabalha-se das oito às dezasseis ou das sete às quinze. Oito horas, como cá. Sem hora de almoço - é engolir qualquer coisa, uma sandes, por exemplo, e seguir. E às quatro da tarde estão livres para ir buscar os filhos e viver a rotina do dia a dia que, julgo, é igual em todo o lado: banhos, jantar, cama. Ou, no caso de quem não tem filhos, às quatro da tarde estão livres para ir ler um livro, ver um filme, o que for. Então não era de um país como o nosso deixar a preguiça de lado e aproveitar o tempo? Com um horário destes (real, cumprido, e não um horário daqueles que é assim no papel e depois na realidade é outra coisa qualquer - como os bancos, que toda a gente sabe que não funcionam só das oito às quatro), começaríamos a trabalhar mais cedo mas ficaríamos livres mais cedo. Aproveitávamos mais o tempo, produzíamos mais, vivíamos mais. Mas cá o que impera é o culto da lanzeira: duas horas de almoço, vinte e cinco pausas para cigarros e café por dia, mais o lanche, mais o segundo pequeno-almoço, mais...

Daqui a vinte anos não quero sentir que não vivi a infância dos meus filhos porque estive barricada a trabalhar. Sim, o trabalho é importante. Mas, para mim, o mais importante é a minha família. E, se um dia tiver uma empresa, o mais importante há-de continuar a ser a minha família e as famílias das pessoas que trabalharem comigo. Eu não vivo para trabalhar, trabalho para viver. E isto não tem que ser ofensivo para ninguém.

Agora ide. Ide ver como vai a revolução!


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A revolução continua

28.04.11
A revolução que hoje começou promete. Promete e tem que cumprir, que isto não é política de trazer por casa. Portanto continua amanhã. Mas para que isto seja um movimento sério, levado a sério, ouvido - que é esse o objectivo, não é só vir aqui largar umas larachas e continua tudo como antes, amanhã é outro dia - temos que ser mais. Temos que nos unir e falar. Temos que explicar porque é que as coisas deviam ter por espinha dorsal a flexibilidade.

É fácil fazer leis estando por fora das realidades. Há uns tipos iluminados que acham que é assim. Mas não sabem se é efectivamente assim porque não vivem aquela realidade na pele. Nós vivemos na pele a pressão para sermos perfeitas em todos os papéis que assumimos. Vivemos na pele a injustiça de quererem que trabalhemos 70 horas por dia, não nos sobrando tempo para os filhos, mas a seguir criticam-nos a educação que damos a esses mesmos filhos. Ora bolas, omeletes sem ovos é coisa complicada de fazer, não?

Portanto, pessoas, toca a escrever. Partilhem as vossas ideias, dêem o vosso ponto de vista, contribuam para esta causa que se quer cada vez maior, mais forte, mais importante. Usem os vossos blogs. Se não tiverem blog, usem o mail. Pode ser este (marianne.notsofast@gmail.com). Depois junta-se tudo num blog que A Mãe Que Capotou criou para o efeito. E depois, quem sabe, havemos de conseguir que se perceba que, quando estivermos felizes com a forma como somos mães e pais e pessoas e cidadãos, havemos de dar muito mais nos empregos, havemos de produzir mais. Ciclo vicioso, pois claro.

Siga a revolução!


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Era uma vez...

28.04.11
... uma rapariga que trabalhava. Solteira, sem filhos, sem compromissos de maior, trabalhava e isso era tudo na vida dela. Entrava às 10h e saía quando calhava, às vezes às 19h, outras às 22h, outras à meia-noite. Era conforme o trabalho que havia e estava tudo bem.

A rapariga teve filhos, casou, tem uma família. Sair às 19h é dramático, depois disso é impossível. Não é suposto acontecer, mas acontece quando há mais trabalho. O próprio horário "oficial" já deixou de ser compatível com a realidade desta rapariga, mas aí nada a fazer... por enquanto.

Se pudesse, esta rapariga teria um horário que lhe permitisse ser mãe e mulher e dona de casa e trabalhar com igual motivação. Qualquer coisa como 9h30 - 17h30, com meia hora de almoço. E sem resvalar, não era ter este horário e depois ficar todos os dias a trabalhar até às 19h, que aí era pior a emenda que o soneto. Se pudesse, esta rapariga trabalhava meio tempo no escritório e o resto em casa, que no que faz é perfeitamente possível trabalhar em casa. Se pudesse, esta rapariga não se sentia culpada por uma coisa que é natural e de que não tem culpa nenhuma. É desumano que nos sintamos culpados por estar a cumprir horários à risca e não andar a dar meias horas todos os dias, porque temos uma família que também precisa de nós.

A rapariga precisa de trabalhar, porque tem contas para pagar e filhos para alimentar. A empresa precisa da rapariga porque há trabalho que tem que ser feito. Os filhos dela precisam dela porque... bem, porque é mãe deles e não precisamos de ninguém como precisamos de uma mãe.

Vai daí, flexibilizar a coisa era o ideal. Haver um ajuste da realidade do trabalho à realidade dos funcionários, não prejudicando o empregador e não prejudicando o empregado. É óbvio que, prejudicando o empregador, a questão não se põe, porque a ideia não é fazer de cada empresa uma pequena sucursal da Santa Casa da Misericórdia. Mas fazer dos empregados putas sempre disponíveis também não me parece nada bem.

Por isso, no mundo ideal desta rapariga, os horários seriam ajustados sem perdas para nenhum dos lados. Nas sete horas e meia que tem que trabalhar, trabalha. Depois disse está em horário pessoal e tem mais que fazer: filhos para ir buscar à avó e ao colégio, banhos para dar, jantares para fazer, brincar com os miúdos, deitá-los, ler-lhes uma história, dizer-lhes que os ama sem ter um relógio a bater-lhe na cabeça e a gritar "despachem-se que já são onze da noite". Porque, no meu mundo real, sem esta flexibilidade de que falo e que seria ouro sobre azul para mim, daqui a dois meses hei-de andar assoberbada, a correr todos os dias, a desesperar com os miúdos porque precisam de dormir e já é tarde e eu só cheguei às tantas e assim é impossível chegar a todo o lado. E, para mim, a família está em primeiro lugar. Não estava, quando comecei a trabalhar naquela empresa, porque na altura vivia sozinha e tinha todo o tempo livre para mim. Isso acabou e agora é pelos meus filhos que tenho que me reger e eles não se compadecem com uma mãe que aparece em casa às tantas, esgotada, stressada e em parafuso com tudo o que ainda há a fazer depois de sair do escritório.

A revolução industrial foi uma coisa boa, a ideia de as mulheres trabalharem como os homens também, mas a realidade vai um bocado mais além destes dois factos. A realidade é que as mulheres têm que chegar a todo o lado e isso não é fácil. Não é fácil compatibilizar dois papéis tão absorventes e ser irrepreensível em ambos. Não é fácil porque o tempo não estica, o dia só tem vinte e quatro horas. E depois é ver-nos frustradas porque não conseguimos chegar a todo o lado. É por isso que sou pela flexibilização. Porque uma mulher que sente que cumpre tudo o que se espera dela é uma mulher realizada, que depois acaba por conseguir fazer mais e melhor. E não é isso que se quer, que façamos tudo o que podemos, de maneira excelente e sem falhas?

A vossa,
Estemerinda


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