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Portugal dos pobrezinhos

31.07.13

Acho que já todos esbarrámos com o infeliz (to say the least) comentário de uma das herdeiras do império Espírito Santo no Expresso. Diz ela que passar férias na Comporta é como "brincar aos pobrezinhos".

 

Tenho para mim que o grande, enorme problema deste país é o facto de haver uma certa elite de endinheirados que tem vivido toda a vida à custa dos pobrezinhos. Esta gente, onde certamente se inclui esta pessoa que proferiu a idiotice supracitada, não faz ideia do que é viver neste país. Saberão com certeza o que é viver nas Quintas Patiño da vida, onde certamente não faltará nada (a não ser neurónios, em gente como a tal senhora). Mas não sabem o que é ter que viver à sombra das desgraças. Não sabem o que é viver a ver sempre o fundo à carteira, todos os dias, sempre, sempre, sempre. Não sabem o que é ter que fazer contas para ver em que cortar naqueles meses ainda mais apertados: o seguro do carro, o IMI, o material escolar. Não sabem o que é chegar a dia 20 com dez ou quize euros na conta - e só receber a 30. Esta gente vive lá fechada nos seus palacetes, frequenta as festas de outros endinheirados como eles, vivem numa bolha irreal e tão, mas tão desfasada da realidade do país do qual são cidadãos.

 

E eu gostava mesmo de ver esta senhora Cristina (que nem sequer nome de rica tem, benzádeus!) a brincar a sério aos pobrezinhos. A ter que contar cêntimos. A ter que comer menos para que nada falte aos filhos. A usar roupa com remendos, ou doada, ou recolhida na igreja. A não ir a lado nenhum por ter a gasolina do depósito à justa para ir levar os filhos à escola todos os dias, até ao fim do mês. A ir de férias para um parque de campismo qualquer, com a tenda emprestada pela cunhada. A não poder dar uma prenda (sim, eu sei, os ricos dizem "presente") de aniversário aos filhos. A não poder convidar pais, sogros, irmãos ou amigos para jantar porque isso representa um rombo incomportável no orçamento. Não fazem ideia do que é viver com uma corda na garganta, corda essa que, de 1 a 31, se aperta cada vez mais, até ao próximo salário, único dia do mês em que se pode respirar de alívio (mas só até se fazerem contas novamente e se perceber que, mais uma vez, não se vai conseguir poupar dez euros que sejam).


E também gostava que nós, os pobrezinhos, pudéssemos um dia brincar aos ricos. Invadir o palacete da sôdona Cristina e passar lá a tarde, o dia, o ano. Usufruir da piscina, da despensa, das milhas no cartão da TAP. Gostava que pudéssemos todos ser accionistas daquele império, para que pudéssemos por uma vez que fosse, viver em vez de apenas sobreviver.

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