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Conto-te #8_Cartas de um amor que dói

06.02.13

 

Meu amor,

Passaram dois anos, sete meses, três semanas e quatro dias. Mil oitocentos e setenta e oito dias sem ti. Aí na guerra espero que continues vivo. Aqui também vivo como se estivesse na guerra. Todos os dias tento sobreviver sem ti. É uma agonia estar longe dos teus abraços, ausente dos teus beijos, prisioneira dos dias que tardam em passar. Dizem por aqui que a guerra está para acabar. Oxalá seja verdade. Temos quase trinta anos, devíamos estar a cuidar dos filhos, a trabalhar com afinco, a sonhar com o que eles hão-de ser no futuro. Quero tanto que regresses, meu amor. Inteiro, sem mazelas, com saudades minhas. Havemos de nos casar quando voltares, não é, meu João? Bem sei que nunca me pediste em casamento, mas eu cá quero acreditar que hás-de chegar e que, assim que puseres os pés no chão deste país que te mandou à morte para África, hás-de esquecer todos os horrores que viste e hás-de pedir-me se quero ser tua mulher. Vivo de esperança, como vês. E cheia de saudades tuas, meu amor, meu João.

Toma um beijo desta que muito te estima,

A tua,

Joaquina

 

Minha querida,

Cá recebi o teu aerograma, que muito me tocou. Pois claro que hei-de querer que sejas minha mulher e que me faças esquecer todos estes dias horríveis que aqui tenho vivido. É esse pensamento que me faz fugir das balas, Joaquina. Já não há-de faltar muito para regressar a casa. O nosso capitão já nos avisou de que o fim da guerra está próximo, mas não sabia se ele mentia só para nos aconchegar. Com o teu aerograma tive a certeza de que este inferno vai ter fim. Diz à Justina que morreu o Almeno. Quando regressar levo-lhe as cartas que ele lhe escrevia e não lhe chegou a enviar. Era mais novo do que eu e morreu sozinho numa emboscada. Reza por ele e por mim, para que nada me aconteça.

Recebe um beijo deste que te adora,

João

 

Querido diário,

Enterrámos hoje a minha irmã Joaquina. Anteontem vieram entregar-lhe um telegrama do Ministério, a informar da morte do João. Morreu a 22 de Abril, decapitado pelo inimigo. Ela, coitada, não aguentou o desgosto nem as saudades. Eu espero ansiosa o regresso do meu Almeno, que Deus o guarde são e salvo. Havemos de casar quando ele voltar.

Tua,

Justina

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3 comentários

De Rita Catita a 06.02.2013 às 11:28

É impressão minha ou falta aqui um texto que li pelo google reader muito mórbido.... pá não gostei!

Biso

De Lénia Rufino a 06.02.2013 às 11:56

Ahahahah! Falta... aliás, foi publicado sem querer. Aquilo foi escrito no âmbito de um concurso de escrita criativa, cujo tema era qualquer coisa como "escreve a notícia da tua morte". Não tem nada de mais, era só uma ficção a obedecer a um tema. Ainda assim, não o queria ter publicado assim, descontextualizado.

De Nicole a 06.02.2013 às 18:03

Brutal! Lindíssimo.

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