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Conto-te #7_Caderno de irritações

30.01.13

Naquele tempo, não era permitido às mulheres queixarem-se dos maridos. Bons ou maus, eram o fardo a carregar. Mas Isaura não era de ficar calada. Precisava de encontrar forma de deitar cá para fora tudo o que lhe entupia o peito. Procurou uma solução que conjugasse as duas coisas: dizer tudo o que a queimava por dentro e ninguém saber.

Comprou um caderno. Mais parecia um bloco de notas e Isaura achou que passaria despercebido. Assim que chegou a casa sentou-se à mesa e escreveu.

 

“Se eu soubesse o que sei hoje não tinha feito a vontade à minha madrinha e não me tinha casado contigo. Malditos casamentos arranjados! Estamos casados há trinta e sete anos e tudo, tudo em ti me irrita. A maneira pouco educada como comes, com a comida quase a saltar-te da boca. A maneira sôfrega como bebes copos de vinho à refeição. A maneira mesquinha como criticas os nossos netos, coitados, tão pequenos e já tão massacrados. A maneira como deixaste de olhar para mim, logo depois de os nossos filhos nascerem, há trinta anos. Passaste a achar que eu não sou mais do que uma serviçal sempre pronta a fazer o que tu queres. Enganas-te. Irrita-me que fales como um taberneiro, que cheires a taberneiro, que penses como um taberneiro. Demorei muito tempo a perceber que morri há trinta anos. Podia ter tido uma vida boa, podia ter aprendido alguma coisa. Em vez disso amarrei-me a este casamento que me enoja mais a cada dia que passa. Se eu tivesse outra vez trinta anos já me tinha divorciado de ti. Não deixaria que me tocasses sequer com um dedo cada vez que chegas bêbedo a casa e que me tratas como uma prostituta. Mais do que nojo, tenho pena de ti. E, se não fosse pelos filhos e pelos netos, desejaria todos os dias que morresses rapidamente”.


Fechou o caderno com força e guardou-no na gaveta da mesinha de cabeceira. No meio dos livros de orações, ninguém havia de dar por ele. Alguns anos depois, não muitos, morreu-lhe o marido de repente. Uma bebedeira tombou-o na rua onde se finou de ataque cardíaco. No dia do funeral Isaura atirou para dentro do caixão o caderno das irritações. Tinha morrido com o marido a vontade urgente de mitigar tudo aquilo que a comia por dentro. Estava finalmente livre. Do marido e das irritações.

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