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A Pépa, a Samsung, a SIC, a mala e esta coisa do marketing e dos blogs

14.01.13

A Pépa tem um sonho de consumo. Aparentemente, tem um sonho de consumo desfasado da realidade que se vive no país a que calha pertecer. A Samsung achou por bem dar voz ao sonho de consumo da Pépa. O sonho da Pépa é ter dinheiro para comprar uma mala que, por alto, custa 3000 euros. A SIC achou por bem levar a Pépa ao jornal da noite de sábado para esmiúçar a história da mala. Vamos por partes.

 

A Pépa (que nunca vi mais gorda, nem faço questão nenhuma de) é uma miúda de 25 anos que tem um blog de moda (que não leio e que não vou passar a ler - da mesma forma que não leio nenhum outro blog de moda). Por causa disso, a Samsung, conduzida sabe-se lá por que marketeer, resolveu que era boa ideia convidá-la (a ela e a mais quatro pessoas que escrevem blogs de moda) para fazer um vídeo a falar do seu ano de 2012 e dos seus desejos para 2013. E a Pépa, que quer projectos para o seu blog e parcerias e coiso, aceitou o convite, abriu a porta da casa dela, plantou-se ao lado da lareira e vai de desfiar o ano de 2012 e os desejos para 2013. A coisa correu mal e a Samsung retirou os vídeos. A SIC achou que tudo isto era notícia e levou a rapariga lá ao telejornal, para falar da história.

 

Se o vídeo me chocou? Não propriamente. Mas achei idiota. Achei idiota, não o desejo da Pépa em si, mas o facto de a Samsung ter achado boa ideia associar-se a esta gente para se promover. As marcas devem, a meu ver, ter muito cuidado na selecção das pessoas com que se envolvem. Porque um blogger não é um funcionário da Samsung e não está, necessariamente, no mesmo comprimento de onda que a marca. Foi o caso. Tanto quanto me é dado a perceber, o nicho "bloggers de moda" não representa em nada a Samsung. A ideia é o quê? Passar uma imagem elitista? Se é, mega tiro no pé. Uma marca destas, ao assumir-se assim, anula uma série de outros nichos de mercado. Perigoso, diria eu.

 

Até que ponto é que um blogger de moda, seja ele quem for, representa uma marca deste género? Não representa, acho.

 

O meu exemplo em concreto: eu nunca poderia representar uma marca destas (nem outras, mas já lá vamos) porque o meu blog é pequeno, chega a pouca gente, não é comercialmente interessante para isso. A que tipo de marcas poderia associar-me? A uma ou outra marca de coisas para criança (uma Zippy - e daí para baixo em termos de posicionamento/preço), a editoras comuns (uma Presença, por exemplo) e pouco mais. Porque é que eu nunca poderia associar-me a marcas premium? Porque eu não sou assim. Eu não uso coisas premium. Eu não compro roupinha-de-ir-à-missa para os meus filhos. Eu não uso a última tecnologia. Eu não uso maquilhagem cara. Eu, enquanto espaço publicitário, simplesmente não sou apetecível - nem pretendo ser, bem entendido.Eu nunca poderia representar bem uma coisa que não sou. Simples.

 

O grande erro aqui foi da Samsung, que se associou às pessoas erradas e depois, quando a coisa deu para o torto, eliminou o que havia a eliminar e continuou a sua vidinha. Não se manteve ao lado de quem convidou. Porquê? Porque não se quis afundar com a Pépa. Foi o capitão o primeiro a abandonar o navio.

 

A SIC agarrou na rapariga e meteu-a frente a frente com a Maria João Ruela que, num tom paternalista, a tentou levar a retractar-se do que tinha dito. A rapariga afundou-se ainda mais, porque foi levada a isso. A forma como a entrevista foi conduzida atesta uma emenda que é pior do que o soneto, assim a léguas. Dizia a jornalista que a Pépa foi vítima de cyber-bullying. Talvez. Mas não houve ninguém de direito que tenha vindo a público defender a rapariga e assumir a sua quota parte. Diz ela que o vídeo é o resultado de uma gravação de duas horas. A edição dessas duas horas terminou naqueles dois minutos e meio de conversa. E temos mais um que atirou achas para a fogueira: a pessoa que criou o conceito dos vídeos (e que também tem um blog de moda e que também fez um vídeo) terá - digo eu - alguma responsabilidade sobre a edição da peça. E a Samsung aprovou os videos, razão mais do que suficiente para defender a sua dama até ao fim. Não o fez e atirou a Pépa aos lobos.

 

Continuo a achar que o sonho da Pépa é um sonho de uma realidade paralela qualquer. Mais ainda depois de, na entrevista à SIC, a rapariga ter dito que a família está a sentir a crise, que ela própria sente a crise mas, ainda assim, quer muito comprar a mala (ou carteira ou bolsa ou bag ou handbag ou seja lá qual for o termo fashionably correct para isto). Parece-me alienada do que por aqui se vive, mas é problema dela. E da Samsung, embora ache que a Samsung ainda não percebeu isso.

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4 comentários

De triss a 14.01.2013 às 16:24

No meio disto tudo, o comportamento da Samsung foi lamentável.

De Nita Pirolita a 14.01.2013 às 18:41

Carago, que já tinha saudades tuas! :D
Beijinhos

De Jo a 14.01.2013 às 23:18

Ora... não podia estar mais de acordo contigo!

De Zé Cabra a 17.01.2013 às 01:02

A rapariga esteve impecável na entrevista, serena e genuína. Os burros foram somente os pseudo-marketeers da Samsung, que descontextualizaram e deram lugar ao mal entendido. Outros burros se seguiram, em críticas tão impiedosas quanto irracionais, dispersas por Facebooks e blogues inúteis. É um retrato de uma sociedade sem capacidade de ter objectivos, sejam eles quais forem.

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