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La crise...

17.07.12

Ouço hordas de funcionários públicos a queixarem-se da falta dos subsídios de férias. "Ah, se isto fosse um país civilizado recebia o subsídio este mês". (Em Inglaterra, por exemplo, não há subsídios. E, tanto quanto sei, é um país civilizado).

 

Depois, de caminho, ouço-os contarem dos planos de férias: Algarve, Costa Alentejana, quiçá um salto ao sul de Espanha. Pedem sugestões de hotéis, de restaurantes, de coisas para ver e de sítios onde ir. Mas "ah, se isto fosse um país civilizado...". E queixam-se da falta dos subsídios, do quão mal têm que viver por não ter direito ao subsídio de 2012.

 

Cá em casa somos quatro. Vivemos com o equivalente a um (UM) ordenado que, não sendo o ordenado mínimo, não é um ordenado fora do comum. É um ordenado mileurista, normal. E somos quatro pessoas a viver com esse dinheiro. Desse ordenado só a sexta parte recebe subsídios. Equivale a cerca de metade de uma prestação da nossa casa.

 

Ou seja, obviamente, não dá para férias no Algarve, nem na Costa Alentejana, muito menos no sul de Espanha. Dá para que vivamos todos os meses, sem extravagâncias. Ninguém passa fome, ninguém anda sem roupa, ninguém dorme ao relento. E ninguém se queixa do que por aqui se ganha. Porque, em primeiro lugar, não é impossível viver assim. É até um óptimo exercício de criatividade e sobrevivência. A minha filha, por exemplo, sabe o que pode e o que não pode pedir. E respeita os nãos, da mesma forma que celebra os sins, quando acedo a dar-lhe um mimo na forma de um chupa ou de um gelado. Não somos infelizes por viver assim. Em 2007 vivíamos com o dobro do que temos agora. Não nos queixamos. Somos felizes. Não temos o último iPhone, não pomos os pés num avião desde 2010, não vamos ao Algarve desde 2008, não jantamos foram mais do que duas vezes por ano, não fazemos festas de aniversário aos nossos filhos. Mas todos os dias há comida na mesa, sorrisos e tema de conversa.

 

Este ano, como nos últimos anos, a praia faz-se quase à porta de casa. As férias são repartidas entre a terra dos meus pais e a terra dos pais dele, onde temos gente que nos dá dormida. Não perguntamos por restaurantes onde ir porque não podemos ir a nenhum. Mas somos felizes na mesma. Portando, lamento, mas não tenho a mínima pena de quem se queixa da falta de subsídios e a seguir pergunta por um bom hotel algures a sul do país. Que pariu é, na verdade, o que me apetece responder.

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46 comentários

De Filipa Oliveira a 17.07.2012 às 10:45

Eu e o meu marido somos funcionários públicos, mas daqueles que juntando os dois salários dá o valor que mencionaste no teu texto. Portanto, recebemos subsidio, mas com um corte considerável. Tivemos que fazer ajustes, mas desde há muito tempo... Ano passado, por exemplo, não fomos de férias porque tínhamos que tratar do enxoval da "Helena" e este ano as férias vão ser em família, com os pais, para dividir despesas.
Algarve, 2007, e avião 2009. lol
Só temos uma filha, mas por cá a realidade é mais ou menos como descreves. Não fazemos parte desses funcionários públicos lol

De Coquinhas a 17.07.2012 às 11:17

Parabéns pelo blog. Gosto muito de a visitar, e mesmo não a conhecendo nutro uma admiração por si, pela sua força e positivismo :).

Finalmente encontro alguém que vê este assunto tal como eu vejo.
Lá em casa nunca fomos para o Algarve de férias. As férias foram sempre passadas em casa dos pais com a família, e nunca fomos menos felizes por isso. Também nos dividimos pela casa dos meus pais e pela casa dos meus sogros, é barato, não falta comida e há sempre alegria e boa disposição.
Quem pode, e gosta acho muito bem que vá para o Algarve, que viaje bastante, se divirta e aproveite ainda mais, desde que não venham com choradinhos. Se têm casa, saúde, trabalho e comida, disto para cima já é um bónus.
Temos de viver consoante as nossas possibilidades e não de subsídios.

De Ana 100 Sentidos a 17.07.2012 às 11:21

Aqui a única premissa base errada é o facto de efectivamente em Inglaterra não haver subsídio de férias nem de Natal, mas o valor de um ordenado médio também não é comparável do português.
Obviamente que o nível de vida também não o é, mas ainda assim, na divisão final nós portugueses ficamos a perder.

De Maria Vaz a 20.07.2012 às 13:02

A questão dos subsídios de férias tem a ver simplesmente com o facto de eles receberem à semana e nós ao mês. Supostamente os subsídios de férias deviam fornecer esse "acerto".

De Rubi a 17.07.2012 às 11:44

É mesmo isso. Temos que viver com o que temos. E não se é infeliz porque se vive com menos, esta crise aguça a criatividade. Já vivi com muito do que tenho agora, e claro que é porreiro ter dinheiro, não sou muito adepta de jantaradas fora, prefiro receber os amigos, mas adoro viajar e passar fins-de-semana a descobrir a Inglaterra rural. Mas já vivi com muito muito menos e não sendo 'cool' não foi atroz. Vive-se!

De Rita @ the busy woman and the stripy cat a 17.07.2012 às 12:02

Adorei ler este post! Só mostra a pessoa espectacular que eu sei que és.
Pena é que as pessoas que têm esta mentalidade em Portugal são muito poucas... Li hoje um post sobre os dinamarqueses vem mesmo a propósito: http://manualdafelicidade.blogspot.pt/2012/07/porque-os-dinamarqueses-sao-tao-felizes.html
bj
rita

De Juana a 17.07.2012 às 12:06

clap, clap, clap... tudo verdade. já no meu caso, tenho trabalho, não tenho filhos, nem dívidas e não vou de "férias" para o estranjeiro desde 2008 e sim os outros gostam de vir a minha casa passar férias, "but i'm not in the mood for..."

De EIMV a 17.07.2012 às 12:18

Em Inglaterra ganha-se um pouco melhor que cá. Não é comparável.
E a verdade é que há muita gente a quem a a falta de pagamento de subsídios veio colocar ainda em piores lençóis. Isto das generalizações tem muito que se lhe diga, especialmente nos tempos que correm...

De Anónimo a 18.07.2012 às 07:41

Exactamente!
Lá não há «subsídios», porque os valores são muito superiores.
Esclareça-se também que o 13.º e o 14.º meses não são meses extra de pagamento nem «docinhos» dados aos trabalhadores. O rendimento é anual e épago em 14 meses - o que é um bocadinho diferente. É um direito.
E atenção que não defendo causa própria. Não tenho nem nunca tive subsídios pq sempre trabalhei a recibos verdes. Logo, não trabalho, não recebo - as simple as that.
Mas não se pode generalizar dessa forma...

De a 17.07.2012 às 12:22

Olá,
Já leio o teu blog há imenso tempo mas nunca comentei. Hoje deu-me a vontade toda! Porque ultimamente não faço mais nada do que dizer exactamente a mesma coisa (adaptando a mim que nem um avião pisei, nunca) às pessoas que me rodeiam. E sou feliz na mesma. Eu nunca soube o que era ir de férias para lado nenhum e sempre fui feliz e nunca me chateei muito. Os meus filhos também não. Somos felizes em estarmos todos juntos.Tal como tu, desde que tenha o suficiente para o dia a dia já me dou por satisfeita. A praia também é sempre a mesma e adoro.
Gostei que tivesses voltado como antes. Já fazias falta!

De Anita a 17.07.2012 às 12:25

Por acaso, ontem revi uma notícia de 2011, onde Cavaco Silva dizia que o português estava habituado a uma vida fácil e isso revirou-me as entranhas, porque a minha vida está longe de ser fácil. Mas a questão é que não é fácil, mas não é de agora... Tenho de ser, até por escolha própria, bastante regrada a nível de gastos, porque desde muito nova passei a viver sozinha e assim me mantenho. Conforme referiste no post, há uns anos atrás talvez se vivesse um pouco mais desafogadamente, mas vida fácil foi coisa que nunca tive.
Mas a questão é que o Cavaco Silva pode ter errado ao generalizar o português, mas a verdade é que essa situação que descreves é do mais real que existe presentemente... Porque ainda há muito boa gente que se queixa, mas que vai de férias na mesma, seja para o Algarve ou para além-mar, apesar da crise. E no bolso ainda leva o tal telemóvel, já para não falar em ipad's e companhia...
Olha eu já não ponho o pé num avião desde final de 2003 e mesmo em terras nacionais, a minha praia tem sido sempre a mais perto de casa e mesmo assim fica a 50km e até para isso tenho de fazer muitas contas.
Faço minhas as tuas palavras: que pariu!

De Anónimo a 17.07.2012 às 12:47

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