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Bom dia!!

06.11.13

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Coração nas mãos #01_O cheiro do medo

05.11.13

Tenho uma cabana de madeira já meio apodrecida, num terreno baldio onde nunca passa ninguém. Ao lado, tenho uma pequena horta cuidada que justifica a existência da cabana – alberga utensílios vários e faz as vezes de armazém. Ao fundo, um pequeno regato fornece a água necessária à rega da plantação. E não só.

Deixo a carrinha na entrada do campo, quando já não é possível avançar mais. Agora entardece cedo, quem andava nas hortas certamente já regressou a casa, para o banho da ordem enquanto o jantar não aparece na mesa. Arrasto-a sem fazer barulho – não é muito pesada, é relativamente fácil transportá-la. Garanti que não haverá gritos e que não teremos visitas indesejadas. Ela debate-se sem sucesso. Já deviam saber que, quando são apanhadas, não têm salvação possível; mas não sabem. Lutam sempre, como se agarrassem a vida toda naquelas breves horas que já não valem nada, que não são mais do que as últimas horas daquela vida. Deviam poupar-se, mas nunca o fazem.

 

Abro a cabana e sento-a na cadeira. Prendo-lhe as mãos atrás das costas, destapo-lhe os olhos e explico que lhe tiro a mordaça se prometer não gritar. E que, ao primeiro grito, ficará sem língua. A fila de frascos alinhados à sua frente é um bom dissuasor de gritos: nos frascos há línguas conservadas em formol; nem são muitas, sete, apenas, que fui obrigado a cortar. Na morte, como na vida, as promessas são para cumprir.

Os olhos dela são a definição do medo – as pupilas dilatadas são demasiado verdadeiras. Tiro-lhe a mordaça e ela cumpre com a sua parte: não grita. Talvez tenha perdido a voz, acontece amiúde. Baixo-me para ficar exactamente de frente para ela e explico o que vou fazer.

“Agora vais ficar quieta, não adianta gritares, não adianta gastares energia. Poupa-te, que é o melhor que podes fazer. Vou matar-te, acho que já percebeste isso. Estás longe de tudo, mesmo que gritasses ninguém poderia ouvir-te. E a tua língua acabava ali, num frasco, como as línguas das mulheres que não respeitaram esta regra simples. Vais morrer e vai doer. Vou retirar-te um pequeno pedaço de pele, que depois hei-de guardar. Vou cortar-te dois dedos, que nunca hão-de ser encontrados. Não te preocupes, o teu corpo vai ser limpo e deixado num sítio onde será facilmente encontrado. Ninguém vai ter que andar à tua procura para sempre. Eu sei… eu sei… és nova e não vais poder fazer nada do que planeaste. Paciência. Não chores. Não vale a pena. Podes ter medo. Aliás, deves ter medo. Sou sádico, eu sei. É o teu medo que me alimenta e, por muito que não queiras, vais ter medo. Depois hás-de desmaiar e, quando morreres, já não vais sentir mais nada. Prometo.”

 

A cabana cheira a mofo, a madeira velha, a ferrugem e a medo. É isto que me move, este cheiro inconfundível do medo. Sangue, suor, lágrimas, saliva – o medo é uma equação feroz. É a animalidade. É a alma a ser purgada. O medo é o fim e o início; é o gatilho. A última satisfação. Não me dá particular prazer matar; não o acto de matar em si. O que me excita, o que me estimula é o cheiro do medo, aquela combinação voraz de odores primitivos que me traz de volta ao centro, que me mostra quão primários somos. Se eu pudesse ter este cheiro sem matar, teria. Mas não há medo mais poderoso que o medo da morte. E este, depois de provocado, tem que ser concretizado. Só assim se propaga e continua. Só assim sei que posso voltar a sentir este cheiro que me resolve.

 

Levanto-a da cadeira e deito-a numa mesa de madeira e metal que construí com esmero. Prendo-lhe os pulsos e os tornozelos por forma a expor os seus membros e poder chegar onde quero. Puxo-lhe o cabelo para trás com força, fazendo-o cair para fora da mesa. Começa a surgir a dor, o massacre da dor, o potenciador do medo feroz. Ela sua em profusão. Ainda não desistiu de viver, não se rendeu, e ainda bem. Se já se tivesse abandonado à sua sorte deixaria de ter razões para sentir medo e perder-se-ia este cheiro, o cheiro que antecipa a morte. Com um bisturi, desenho-lhe uma elipse na pele do interior da coxa esquerda; retiro aquele pedaço de pele sem cerimónias. Ela arrepia-se, os membro retesam-se, ela abafa um grito. Da mão esquerda corto-lhe o anelar, num ritual de compromisso – eu sei, sou um psicopata diagnosticado, plenamente consciente da sua mente retorcida. Ela grita, mais por instinto do que por vontade, pelo que me limito a abrir-lhe um golpe na face, em jeito de aviso: mais um grito e acrescentarei uma língua ao meu portefólio. Sinto-lhe o travo agridoce do suor, vejo as gotículas que se formam na sua pele. Excito-me rapidamente – acontece sempre, mas nunca concretizo impulsos sexuais. As mulheres que capturo não me servem de alívio hormonal, nenhuma foi violada, nenhuma foi sequer tocada intimamente. Da mão direita corto o indicador, o dedo que atribui culpas, que identifica culpados. Simbólico, sim, mas apenas isso; não quero os dedos para nada, não são troféus embora possa parecer que sim. Servem-me para transmitir uma mensagem a quem encontra os corpos delas, mas essas mensagens ainda não foram entendidas. Nunca ninguém sequer se aproximou de mim desconfiando que me pertence o histórico de mulheres mortas, algumas sem língua, todas sem dois dedos.
Ela já esteve perto do desmaio que lhe antevi. Abrandei e ela recuperou o suficiente para que eu pudesse tornar a investir. Faço-lhe um golpe fundo na palma do pé direito – ela é dextra e é este o seu pé forte. Não poderia andar, mesmo que conseguisse escapar. Está perto o momento em que a poderei soltar. Ela soçobrará e não precisarei de usar a força. Aproximo o bisturi da virilha. Ela não percebe o que estou a fazer, talvez esperasse uma morte diferente. Faço um corte fundo em cima da artéria femoral. O sangue jorra com demasiada força para que consiga estancá-lo. Ela desmaia perante a visão do sangue, mais do que pelo efeito da dor. No ar, o cheiro… sempre o cheiro. Depois do suor, é o cheiro do sangue que me activa. A morte virá depressa, mas o cheiro continuará a pairar por muito tempo. No fundo é isso que me interessa: que o cheiro perdure.

 

A seguir vem o trabalho ingrato. É preciso tirar daqui o corpo, limpá-lo, levá-lo até um sítio onde não demore muito a ser encontrado. Calculo que a esta hora já andem à procura dela. Não sei que idade tem, não sei nada sobre ela. Sei que estava no sítio errado à hora errada, como acontece sempre nestes casos. Para mim, foi precisamente o contrário; foi como se encontrasse um tesouro.

Arrasto-a até ao regato. Entretanto já anoiteceu e a única luz que há é a da lua em quarto crescente, quase cheia. Limpo-a com cuidado, sem me preocupar demasiado. Só quero que se perceba que não foi violada, que houve cuidado, apesar da violência da morte que lhe causei. Embrulho-a num lençol e carrego-a de volta à carrinha. Volto à cabana para guardar o que restou deste idílio e para sentir de novo o cheiro que ainda paira no ar. O odor férreo do sangue sobrepõe-se a todos os outros. Hei-de demorar muito a limpar tudo, mas isso será tarefa para amanhã. Hoje preciso de entregá-la a quem a procura. Talvez seja a minha forma de mitigar o mal que fiz, de procurar um resquício de redenção. Talvez seja a minha maneira de dizer ao mundo que, apesar de tudo, este é o meu modo de amar, de me entregar e de ser eu.

 

[Este texto foi publicado na Papel. Recupero-o hoje para trazer de volta os contos que fui publicando por aqui. À terça-feira, daqui em diante.]

 

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...

05.11.13

Já estava a ressacar: desde quinta que não treinava em condições (na sexta fiz um treino super rápido, de meia hora, ou seja, 1/4 do que normalmente faço). Hoje teve que ser: peguei no miúdo e arrisquei. O pior que podia acontecer era chegar lá, ligar a passadeira, ele fazer uma birra (ou portar-se horrivelmente mal - yep, às vezes os meus filhos portam-se horrivelmente mal!), eu desligar a passadeira e virmos embora. Não aconteceu. Deixou-me correr 1.5km e andar mais 0.5km, deixou-me fazer 15 minutos no stepper e deixou-me fazer o treino de hoje, que era o mais curto de todos. Andou por lá a brincar com os peluches dele (deitado numa passadeira e a arrastar-se pelo chão!), brincou com uma bola de Pilates, mas aguentou bem o tempo que lá estivemos (mais ou menos 1h30). Vim de lá de alma lavada, com a t-shirt ensopada e o corpo leve, leve.

 

[Mas palpita-me que amanhã não vai querer ficar na avó... dias de mimo de mãe são imbatíveis! Andamos os dois de coração cheio, é o que é!]

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Red Lipstick Day - a minha batota

05.11.13

Na sexta devia ter sido assim (na verdade foi mais ou menos, só não usei este batom, que é meio alaranjado, e sim o outro, que é vermelho-vermelhão). Hoje, a foto a fazer batota.

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Coração nas mãos

05.11.13

Vocês sabem: a minha praia é a ficção. Aquilo que me move são as histórias a que dou vida através de palavras. É por estas histórias que anseio e, quando uma me aterra no colo, não descanso enquanto não a ponho a respirar. Andava com saudades (e o meu marido sempre a perguntar, Quando é que voltas a publicar contos no blog?). É hoje. Logo, mais ao final da tarde, quando o ambiente começar a sossegar, chega aqui um conto. Talvez já o tenham lido. Recupero-o porque tenho com ele uma relação para a vida: foi o conto que mais prazer me deu a escrever e é o conto (dos meus, bem entendido - porque há por aí muita gente a escrever muito melhor do que eu [Olá, João Tordo; olá, Nuno Amado; olá, Nuno Camarneiro; olá, Afonso Cruz, só para citar alguns!]) que mais gozo me dá, enquanto leitora. O meu preferido, se quiserem. Daqui em diante, à terça à tarde, um pé fora da realidade, com o coração nas mãos.

 

[Retomo o título da minha rubrica na Papel porque é mesmo isso: escrevo com o coração nas mãos, a dar ordem para que as palavras se alinhem e ganhem vida própria. Noutras vidas que não a minha, embora a minha esteja sempre lá.]

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Agendando

04.11.13

Agenda de Novembro preparada. Tantos planos, tantos. Haja ânimo. Adoro estes dias em que, saindo da rotina, acabo por fazer tanto ou mais do que nos dias normais. Apetecia-me, contudo, esquecer a agenda por umas horas e agarrar-me ao livro do momento com um chocolate quente. Não pode ser - nem o livro, nem o chocolate quente (estou mesmo a ver se domestico a minha adição por doces). Tenho o meu filho a dormir e vou ter que o acordar - temos que ir buscar a mais velha à escola. Vai haver birra monstra e má disposição para o resto do dia. A casa começa a cheirar à perna de peru que está no forno, a assar devagarinho. Já estou de luz acesa há quase uma hora, odeio esta altura do ano por isto, por este anoitecer antecipado que me dá a sensação de dias curtíssimos que não rendem nada (mas rendem). Reescrevi um parágrafo fundamental para mim e acho que finalmente está como merece. Vou recuperar duas séries de posts aqui para o blog, começando já amanhã.

 

Gosto muito de vos ter por cá, não sei se já vos tinha dito!

 

 

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Jack & Chloe

04.11.13

Conhecemo-nos há uns 7 anos. Ele era namorado de uma amiga. Demo-nos logo bem. Mesmo comprimento de onda nas piadas, mesmos gostos (excepto ali no que toca ao Sporting dele). Entretanto, a namorada deixou de ser namorada (felizmente, estás tão melhor assim!!), a amiga deixou de ser amiga e nós estreitámos o laço. Não falamos todos os dias, vemo-nos aí uma vez por ano (este ano está a acabar e ainda não nos vimos!), mas sabemos que estamos lá. Para as piadas e para os momentos menos bons. Partilhamos uma paixão comum, que nos deu as alcunhas que adoptámos: no 24, há o Jack Bauer e a Chloe O'Brian, amigos que se ajudam e que estão sempre lá, mesmo quando não sabem sequer o que é feito do outro. Assim somos nós. Para a vida.

 

[Watch out for the Russians, Jack!]

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À antiga portuguesa

04.11.13

Já chegámos ao Manuel, ao António, ao José, ao Joaquim, à Maria da Luz, à Maria do Carmo, à Maria do Rosário (embora, no cado destas últimas, o objectivo seja chamar Carminho e Rosarinho às crianças).

Quando é que chegamos ao Januário, à Gertrudes, ao Emílio, à Josefina, ao Evaristo, à Isilda, à Joaquina, ao Gervário, à Antonieta?

 

[Eu sei: eu é que sou esquisitinha com os nomes. Se calhar é por vir de uma família repleta de nomes esquisitos, que estão mesmo a pedir para serem gozados...]

 

 

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Eu sou uma mãe querida e a Carolina também!!

04.11.13
A Carolina, aka, Kiki, babadíssima mãe da Gigi e do Vicente, é querida. Não a conhecia antes de ela ser mãe, mas aposto que já era querida antes mesmo de lhe nascerem os filhos. Com a chegada deles aprimorou a técnica. É doce, meiga e tem nos olhos um calor que não é muito comum. Não pode ser coincidência, pois não?

Já me ri muito com coisas que ela escreveu no blog, já sorri, já lacrimejei. Agora, aqui, vamos poder ler o melhor da Carolina!

Nós já somos Mães Queridas. E vocês?

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Red Lipstick Day

01.11.13

Lei de Murphy: no dia em que precisares do telemóvel para tirar uma foto tua para ilustrar o Movimento que criaste, o telemóvel vai estar para arranjar. Bingo: logo hoje, primeiro Red Lipstick Day, o meu telefone está estacionado à espera de arranjo. Portanto, estou sem Instagram. Boa, não é? Consigo ver o que está a acontecer na hashtag #redlipstickday, mas não consigo dar o meu contributo (para que conste, estou de batom vermelho desde as 8h30. Já o fui passear à escola da filha, à casa da mãe, ao Ikea e ao café do bairro). Estou a adorar ver a adesão à coisa, estou a adorar ver as fotos e estou a adorar ver gente que dizia que não ficava nada bem de batom vermelho, que não se sentia confortável e o camandro, a curtir o dia e a gostar da experiência!

Espero ter o meu bicho de volta a tempo de juntar mais uma foto ao Movimento... Se não for hoje, amanhã faço uma piccola batota e ponho a foto da praxe.

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Aquele momento em que te vêm as lágrimas ao olhos...

01.11.13

OBRIGADA!!!

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Da amizade

01.11.13

Esta foto tem oito anos e dois meses, aproximadamente. Lembro-me perfeitamente deste dia: almoçámos no Chiado (lembro-me do que comi, imaginem!). Conversámos muito. Rimos. A Catarina, com aquela voz serena, a dar voz a inquietações várias. Eu, com a minha voz agitada, à procura de respostas. Amigas desde o primeiro momento: o dia em que tirámos esta foto abriu caminho para o que ainda hoje temos. Chama-se amizade. Mesmo. Sei que não cresci com a Catarina nem vivi na "margem certa" (como ela diz, coisa que é, obviamente discutível... digo eu, que cresci na outra margem, a de cima). Mas sei que isto que temos é valioso para ela e para mim.

Sinto-me privilegiada por ter esta amiga, sabem? Além de tudo o que conhecem da Catarina (via blog e afins, e que é bem real), há a Catarina ao vivo e a cores, ao telefone em horas complicadas, em vésperas de partos (meus e dela), em casamentos (o meu, para já... mas um dia será no dela também), nos momentos importantes e nos casuais.

Na altura em que tirámos esta foto achávamos que estávamos gordas e decadentes. Não estávamos! Ainda assim, ríamo-nos de nós mesmas (ainda hoje, sempre). E partilhávamos angústias, medos, certezas e incertezas. O filho grande da Catarina era pequeno, doce, um espanto de miúdo. Continua a ser. Eu não tinha filhos (nem vida para isso, na altura), mas queria muito ter. Concretizámo-nos. Ainda andamos à procura do mundo, mas concretizámo-nos. E isto que temos, esta amizade, é de um valor incalculável para mim.


Esta foto tem três meses. Continuamos aqui.


[Gosto tanto de ti, miúda!]

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