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Coração nas Mãos #06_Suão

10.12.13

Um dia entras por essa porta de que não conheces ainda a chave. Pegas no tempo e guarda-lo no bolso, deixas os lamentos no tapete da entrada, assumes o corpo que te coube em sorte e entras. Para trás fica uma vida. Um passado, guardado numa caixa, como fotografias de infância do tempo em que a máquina era analógica e não permitia guardar apenas os sorrisos - ficavam os olhos fechados, os desfoques, os planos incorrectos, ficava tudo como na memória, mesmo os gestos imperfeitos. Deixas os dias em que te soubeste angústia. Deixas as tardes de pés enterrados na areia, enquanto crianças faziam castelos e piscinas à beira do mar daquela praia que ainda é tua. Deixas os bilhetes das viagens de avião, emoldurados há muito, muito tempo. Não trazes nada que seja pretérito. Nas mãos, cada traço é linha de futuro, nada que consigas ainda decifrar.

Abres a porta e o ar que te rasga os pulmões é frio, um ar fértil e novo, que nunca antes te tocou. Não sabes ao que vais e é aí que reside o fulgor. Abraçarás tudo o que vier. Sorrirás sem mágoas nem reservas. Não tremerás perante incertezas, antes saberás sempre qual o caminho a seguir. No dia em que abandonares à porta a insegurança, no dia em que conquistares o domínio sobre ti, o mundo passa a ser a paisagem que te entra pela janela, vento suão que tranquiliza em vez de inquietar. No dia em que não te julgares nem te exigires coisas para lá do que és capaz, a tua alma sossega e desliza pela tarde, no doce balanço de uma rede amarrada a duas árvores a que conquistou a sombra. No dia em que a porta se abrir, depois de lhe teres encontrado a chave - que esteve sempre contigo, afinal, talvez guardada num bolso escondido, mas contigo, junto ao calor da tua pele -, o teu corpo ganha a luta e tu tornas-te maior do que o medo.

 

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Coração nas Mãos #5_Destempo

04.12.13

Deitámos ao entardecer as dúvidas. Unimos os corpos e deixámos que fosse essa a matemática que responde ao problema. Os cálculos são facciosos. Moldamo-los conforme nos faz jeito, sem que atentemos à verdade dos factos. Quando os corpos suam, a matemática é a ciência menos exacta. Não há nada que permaneça imóvel. Tudo perde o nome e o sentido. Portas fecham-se para que a claridade se circunscreva ao breve momento em que a paz desce sobre a pele e se faz memória.

Estes dois corpos, duas ruas sem saída, encontrados num ponto de fuga, geometria pouco capaz. Restam os peitos que batem acelerados, o fogoso olhar em descontrolo. O tempo ganha minutos, não se sabe se não são verdadeiros os relógios de Dali. Tudo se molda.. Nada é exactamente como os corpos acreditam ser.

Já nos desafiaram tantas teorias. Contradisseram-se todas as certezas, os pantones mudaram de cor, acrescentaram-se luas ao planeta que só demora dois minutos a girar.

No amor, como nas perdas, ausentam-se as certezas dos números exactos e a vista ganha nova dimensão. E nem o silêncio, esse imperador benévolo, se mantém intacto e permanente.

No tempo em que os corpos se fundem, o que resta do mundo é uma névoa demasiado fugaz para se fazer notar.

 

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Coração nas Mãos #4 - Metade Salete, metade saudade

27.11.13

Salete partiu-se ao meio. Naquele momento, entre o frio que lhe gelava o regaço e a ânsia que lhe comia as entranhas, partiu-se em duas e deixou metade de si ir. Ficou a melancolia agarrada aos nós dos dedos. Ficaram as lembranças que já nem se traduzem em lágrimas porque a água salina que carrega não é suficiente para fazer esse rio transbordar. Ficaram os dias riscados no calendário, as esperas, os desenganos.

Salete caminha agora a meio. Meia mulher: uma perna, um braço, um pé, uma mão. O resto de si ficou lá atrás, no dia em que se quebrou como se quebra uma jarra que se atira contra uma parede num momento de fúria em que, cegos, não vemos nada para lá da dor. Quando se despedaçou para não mais se recuperar, enterrou consigo Libério, o sacana que lhe mastigou a vida como uma pastilha elástica e, mantendo a metáfora, a cuspiu quando deixou de lhe sentir o sabor.

 

Perdeu a conta às promessas. Não sabe quantos dias enterrou ali, naquele fim de mundo moreno de olhos verdes que a encantou com palavras de pechisbeque. Entregou-se jovem, a pele ainda cheia de luz, uma alma branca pronta para acreditar. Envelheceu ali, sentada naquele sofá de napa que lhe queimava o corpo quando o Verão chegava à cidade. Abriram-se-lhe sulcos na face, nos sítios por onde escorria o choro cravaram-se fendas, marcas vivas de um tempo que se foi extinguindo à medida que foi deixando de acreditar.

 

Libério julgou-a boneca de porcelana: bonitinha e inútil, incapaz de se mover sem ser por força das suas mãos. Enganou-se. No dia em que Salete se partiu ao meio, tratou primeiro de partir tudo o resto. Apanhou Libério deitado, um sono solto a fazê-lo ressonar, e afundou-lhe na pele as esperanças. Da garrafa terá ficado um ou outro caco perdido atrás do roupeiro, mas Salete não sabe porque não se deu ao trabalho de os procurar. Do sangue ficou o silêncio. Arrefeceu em torno dele, escureceu e finou-se de vez. E Salete, metade mulher, metade saudade, saiu porta fora sem pressas, nas roupas os pingos do sangue do homem que a matou por dentro, na alma um buraco negro por sossegar. Não tirava da cabeça a imagem dele a guinchar como se fosse um porco (que era) e mesmo assim pensava, "há mortes piores, a minha por exemplo, que morri por dentro e tenho que fingir que vivo". Deu-se ao luxo de se lamentar, como se a perda maior fosse a sua. E foi. Perdeu-se pela metade, deixou que ele levasse consigo para a cova o melhor que tinha sido. Absurdo e inútil, este amor de fotonovela, pensava Salete com o meio cérebro que lhe restava.

 

Abeirou-se do rio, a manhã fria a desfazer o nevoeiro denso que nasceu há pouco sobre a cidade. Dobrou-se até conseguir ver-se reflectida na água escura e deixou cair a saudade. Houve um tempo em que ela fora Libério, o homem que a tomou de assalto, a invadiu e a declarou sua. Hoje não. Hoje matou o amor e matou-se a si, deixou-se pela metade. E na incompletude de uma mulher desfeita espraia-se um longo universo de possibilidades. Até na morte há pedaços de vida e Salete deu consigo a sacudir restos de Libério da alma. Chegará o tempo em que não lhe recordará os vícios, em que não se lembrará do tempo que assassinou em torno daquele homem. Chegará o tempo em que duvidará das suas memórias e, com uma sacudidela de ombros, pensará que está a fazer confusão: isto de que se lembra é coisa que leu algures num livro, quando era moça, não é nada que lhe tenha acontecido a si. E a memória, essa faca afiada capaz de nos cortar em pedaços incertos, mostrar-se-á a melhor companhia que poderia ter. Porque entre enganos e cenas esfumadas, o tempo encarregar-se-á de dar a Libério a morte que realmente mereceu - a do esquecimento e do desprezo. E Salete será sempre o que é: metade mulher, metade saudade.

 

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Coração nas mãos #03

19.11.13

Vanessa dorme com todos os homens. Perde-se em camas sem se amarrar. Deixa que lhe beijem o percurso da pele. que lhe arrepiem os sentidos, que a prendam em promessas. Dorme com eles sem regras, hoje sim, amanhã também, o tempo é um fio fininho e galopa ao ritmo a que Vanessa aceita no seu corpo o peso dos homens. Estranha forma de absolvição, a da carne. A angústia que teima em se agarrar ao céu da boca, o vazio que fica quando os homens adormecem no cansaço e Vanessa retoma o caminho dos cigarros acesos e queimados sem que os fume.

Há noites em que o peito se aperta até expulsar o ar. Exercício de vida, ir de mansinho ao encontro da morte. Fica serena, os olhos fechados e o ar a sair num sopro insuspeito. Quando não aguenta mais, abre a boca e os olhos ao mesmo tempo e é como se acordasse. Sente o peito que acelera e sabe que ainda não acabou. O seu corpo é como uma casa esvaziada de tudo para que se parta para outra casa. Ficam caixotes por abrir, memórias gastas e espalhadas pelo chão. Nas paredes, os furos que outrora sustentaram quadros e fotografias muito nítidas.

Há uma névoa, um desgaste suave mas corrosivo. Nesta casa viveu gente. No corpo de Vanessa nunca morou ninguém. Os homens não são homens nem são números. Não têm nome nem corpo nem nada que os distinga entre si. São homens. Jovens e velhos a quem faltam dentes ou erecções, homens casados e gastos por vidas pouco animadas, caçadores furtivos agradados com a presa morena que não sabe sorrir. Vanessa não escolhe. Abre as pernas e deixa que a carne se imponha à carne, como se apanhasse na gare um comboio que não viu chegar e ficasse, ao mesmo tempo, no cais a ver o seu próprio corpo partir.

É doloroso o tempo em que não se reconhece. Da memória sabe pouco. Não recorda sequer o seu nome, por isso escolhe um ao acaso se lhe perguntam como se chama. Depois usa esse até se esquecer. O que faz hoje amanhã não será mais do que uma vaga recordação, uma névoa, algo com que podia ter sonhado.

Não sabe se algum dos homens com que dorme se deitou com ela antes. É provável. Não sabe por onde anda, a que sítios foi. Não reconhece sequer o caminho que a leva a casa, mas traz sempre consigo um papel gasto onde há muito tempo escreveu a morada. Às vezes, num exercício de memória, repete várias vezes o caminho para casa, tentando não se esquecer. Esquece-se sempre.

Olha-se ao espelho todos os dias e é como se olhasse para alguém que nunca viu. Não se reconhece. Não se recorda se sempre foi morena nem que idade tinha quando fez esta cicatriz. É como se morasse numa casa vazia, a que falta mobília, paredes nuas, quartos despidos. Não sabe se nesta casa vive gente. No seu corpo nunca morou ninguém.

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Coração nas mãos

19.11.13

O "Coração nas mãos" de hoje só sai mais logo. Para lerem antes de dormir...

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Coração nas mãos #02_sempre à mesma hora

12.11.13

Acordava sempre à mesma hora. Repetia rotinas que criava como rede para um funâmbulo. Odiava o improviso. Gostava da segurança de saber os dias todos iguais, de saber com antecedência com o que podia contar. Planeava cada fuga à rotina com o máximo de antecipação, para que pudesse habituar-se à ideia e para que nada lhe soasse estranho ou pouco familiar.

 

Tudo na sua casa era produto de aturado estudo. As coisas estavam ordenadas da forma que comprovara ser a mais eficaz. O objectivo, mais do que o perfeccionismo, era que tudo estivesse sempre no mesmo lugar e acontecesse sempre da mesma maneira. Não havia um desalinho, uma ponta solta, nada a quebrar a suave monotonia da previsibilidade.

 

Era contabilista. Não apreciava nada que envolvesse criatividade. Matemática era matemática, não era preciso inventar nada, bastava seguir fórmulas para obter resultados. Nada inesperado pode surgir da matemática. Repetia dia após dia os mesmos procedimentos, as mesmas contas, os mesmos passos.

 

Não convivia com colegas nem era dado a conversas de corredor. Era solitário e não queria ser de outra forma. Criara uma espécie de ilha em seu redor e as águas eram tão fundas e turvas que ninguém ensaiava sequer uma aproximação.

Deixara de visitar a família na altura em que as constantes perguntas acerca da sua solidão passaram de expectáveis a incómodas. Os pais já tinham morrido, os irmãos viviam suficientemente longe para que não precisasse de se inquietar com visitas inesperadas, os sobrinhos mal conheciam aquele tio estranho e psicótico que vivia demasiado afundado no seu mundo e não tinham nele qualquer interesse.

 

A solidão não era uma mágoa. Era um cenário.

 

Uma vez por mês, sempre a uma quinta-feira, saía do escritório depois de terminar diligentemente todas as tarefas do dia, passava em casa, comia qualquer coisa preparada de véspera, vestia o seu fato preto e saía sem ser notado. Quem o visse pressuporia um encontro amoroso: assim se justificava a barba bem escanhoada, o perfume que se sentia no ar e o ar aprumado.

 

Apanhava um táxi que pagava sempre com notas pequenas. Pedia que o taxista o deixasse no princípio da rua, onde a iluminação era escassa e não se ouvia mais do que um ou outro latido canino e o som de uma televisão sintonizada nas notícias. Ajeitava a gravata, limpava o suor das mãos nas calças perfeitamente vincadas e seguia pela rua procurando fazer o mínimo barulho possível. Os cães já lhe conheciam o cheiro e não ladravam à sua passagem. Aprendera a caminhar sem que as capas dos sapatos ressoassem na calçada. Esquivava-se dos halos de luz trazidos ao chão pelos candeeiros. Evitava projectar sombras na parede. Se conseguisse chegar ao final da rua sem se fazer notar teria conseguido cumprir o seu primeiro objectivo.

 

Gastava sempre dois minutos na esquina que encontrava a rua por onde viera e a rua para onde ia. Puxava um cigarro, que não fumava mas que usava como desculpa para estar ali parado, olhava para todos os lados, levantava os olhos sem levantar o queixo e fazia como que uma radiografia às janelas, procurando habitantes que pudessem tê-lo visto. Se calhasse estar alguém à janela – alguém a fumar um cigarro antes do sono merecido ou a sacudir as migalhas da toalha do jantar, a apanhar ou a estender roupa ou simplesmente a apanhar o ar fresco da noite – terminava o cigarro e descia a rua, que havia de desembocar perto de uma praça de táxis. Apanharia o segundo táxi da noite e regressaria a casa. Era este o plano a que nunca precisou de recorrer. Nunca morador nenhum o viu, por isso apagava sempre o cigarro que não chegava a fumar e seguia rapidamente pela esquerda, até ao número trinta e sete. Tocava à campainha que se abria sem que ninguém perguntasse nada. Subia as escadas ligeiro e entrava no primeiro B, onde a porta aberta o aguardava. Ajeitava de novo a gravata preta, deslizava pelo corredor até encontrar a porta que dava para as traseiras. Descia dois degraus e chegava a uma espécie de anexo. As janelas cobertas de vapor denunciavam o espaço. Demasiada gente para a dimensão da sala, demasiadas pessoas a respirar o mesmo ar saturado de fim de Verão, o espaço mal arejado e sem ventilação. Ficava à porta uns breves instantes, a sentir a vibração do lugar. Apesar de toda a preparação, só ali se sentia verdadeiramente dentro da personagem. A sua personagem de uma quinta-feira à noite, uma vez por mês, todos os meses, sem falhas, sem imprevistos, sem alterações.

 

Dava por si a bater o pé ritmicamente. Tum. Tum. Tum.Tum. Três segundos bastavam para que toda a preparação fizesse sentido. Deslizava para o primeiro ponto que captasse a sua atenção. Geralmente, uma morena alta, esguia, de batom vermelho e pernas bem torneadas. Punha-lhe a mão na cintura e puxava-a com força. Enlaçava-a como se fosse amarrá-la para não mais a libertar. Deixava que o ritmo subisse por si e dançava. Olhava-a nos olhos. Apaixonava-se ali. Duraria enquanto durasse aquele tango. Dançava com toda a paixão ausente dos seus dias milimetricamente iguais. Dançava com toda a ânsia que desfazia nas rotinas obsoletas e sufocantes. Soltava amarras e permitia-se ser quem realmente era. As mulheres que dançavam com ele, geralmente morenas empedernidas, sucumbiam àquela garra latina, ao ritmo certo, ao sexo latente. E subiam com ele os dois degraus de volta ao corredor escuro, onde ele as prendia de encontro à parede, sem que lhe oferecessem resistência, sem que questionassem o gesto sequer. E ali, naquele clube de tango clandestino, uma vez por mês, a uma quinta-feira, tomava-as por suas nos minutos que durava o sexo feito dança, o tango feito vida.

 

Ajeitava depois a gravata, limpava as mãos suadas às calças húmidas, alinhava o cabelo e saía de novo para a rua, onde repetia todo o ritual de quem precisa de não ser visto. Transmutava-se assim que cruzava a esquina que dava para a rua mal iluminada por onde caminhara ao início da noite. Voltava a ser o homem invisível de sempre. Retomava as rotinas incorruptíveis. Sacudia das mãos o tremor e regulava novamente a respiração. Desvanecia-se nas ruas da cidade e não voltava a existir até à quinta-feira escolhida do mês seguinte. Era exímio na arte de não existir e exímio na arte de ser exactamente quem era.

 

 

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Coração nas mãos #01_O cheiro do medo

05.11.13

Tenho uma cabana de madeira já meio apodrecida, num terreno baldio onde nunca passa ninguém. Ao lado, tenho uma pequena horta cuidada que justifica a existência da cabana – alberga utensílios vários e faz as vezes de armazém. Ao fundo, um pequeno regato fornece a água necessária à rega da plantação. E não só.

Deixo a carrinha na entrada do campo, quando já não é possível avançar mais. Agora entardece cedo, quem andava nas hortas certamente já regressou a casa, para o banho da ordem enquanto o jantar não aparece na mesa. Arrasto-a sem fazer barulho – não é muito pesada, é relativamente fácil transportá-la. Garanti que não haverá gritos e que não teremos visitas indesejadas. Ela debate-se sem sucesso. Já deviam saber que, quando são apanhadas, não têm salvação possível; mas não sabem. Lutam sempre, como se agarrassem a vida toda naquelas breves horas que já não valem nada, que não são mais do que as últimas horas daquela vida. Deviam poupar-se, mas nunca o fazem.

 

Abro a cabana e sento-a na cadeira. Prendo-lhe as mãos atrás das costas, destapo-lhe os olhos e explico que lhe tiro a mordaça se prometer não gritar. E que, ao primeiro grito, ficará sem língua. A fila de frascos alinhados à sua frente é um bom dissuasor de gritos: nos frascos há línguas conservadas em formol; nem são muitas, sete, apenas, que fui obrigado a cortar. Na morte, como na vida, as promessas são para cumprir.

Os olhos dela são a definição do medo – as pupilas dilatadas são demasiado verdadeiras. Tiro-lhe a mordaça e ela cumpre com a sua parte: não grita. Talvez tenha perdido a voz, acontece amiúde. Baixo-me para ficar exactamente de frente para ela e explico o que vou fazer.

“Agora vais ficar quieta, não adianta gritares, não adianta gastares energia. Poupa-te, que é o melhor que podes fazer. Vou matar-te, acho que já percebeste isso. Estás longe de tudo, mesmo que gritasses ninguém poderia ouvir-te. E a tua língua acabava ali, num frasco, como as línguas das mulheres que não respeitaram esta regra simples. Vais morrer e vai doer. Vou retirar-te um pequeno pedaço de pele, que depois hei-de guardar. Vou cortar-te dois dedos, que nunca hão-de ser encontrados. Não te preocupes, o teu corpo vai ser limpo e deixado num sítio onde será facilmente encontrado. Ninguém vai ter que andar à tua procura para sempre. Eu sei… eu sei… és nova e não vais poder fazer nada do que planeaste. Paciência. Não chores. Não vale a pena. Podes ter medo. Aliás, deves ter medo. Sou sádico, eu sei. É o teu medo que me alimenta e, por muito que não queiras, vais ter medo. Depois hás-de desmaiar e, quando morreres, já não vais sentir mais nada. Prometo.”

 

A cabana cheira a mofo, a madeira velha, a ferrugem e a medo. É isto que me move, este cheiro inconfundível do medo. Sangue, suor, lágrimas, saliva – o medo é uma equação feroz. É a animalidade. É a alma a ser purgada. O medo é o fim e o início; é o gatilho. A última satisfação. Não me dá particular prazer matar; não o acto de matar em si. O que me excita, o que me estimula é o cheiro do medo, aquela combinação voraz de odores primitivos que me traz de volta ao centro, que me mostra quão primários somos. Se eu pudesse ter este cheiro sem matar, teria. Mas não há medo mais poderoso que o medo da morte. E este, depois de provocado, tem que ser concretizado. Só assim se propaga e continua. Só assim sei que posso voltar a sentir este cheiro que me resolve.

 

Levanto-a da cadeira e deito-a numa mesa de madeira e metal que construí com esmero. Prendo-lhe os pulsos e os tornozelos por forma a expor os seus membros e poder chegar onde quero. Puxo-lhe o cabelo para trás com força, fazendo-o cair para fora da mesa. Começa a surgir a dor, o massacre da dor, o potenciador do medo feroz. Ela sua em profusão. Ainda não desistiu de viver, não se rendeu, e ainda bem. Se já se tivesse abandonado à sua sorte deixaria de ter razões para sentir medo e perder-se-ia este cheiro, o cheiro que antecipa a morte. Com um bisturi, desenho-lhe uma elipse na pele do interior da coxa esquerda; retiro aquele pedaço de pele sem cerimónias. Ela arrepia-se, os membro retesam-se, ela abafa um grito. Da mão esquerda corto-lhe o anelar, num ritual de compromisso – eu sei, sou um psicopata diagnosticado, plenamente consciente da sua mente retorcida. Ela grita, mais por instinto do que por vontade, pelo que me limito a abrir-lhe um golpe na face, em jeito de aviso: mais um grito e acrescentarei uma língua ao meu portefólio. Sinto-lhe o travo agridoce do suor, vejo as gotículas que se formam na sua pele. Excito-me rapidamente – acontece sempre, mas nunca concretizo impulsos sexuais. As mulheres que capturo não me servem de alívio hormonal, nenhuma foi violada, nenhuma foi sequer tocada intimamente. Da mão direita corto o indicador, o dedo que atribui culpas, que identifica culpados. Simbólico, sim, mas apenas isso; não quero os dedos para nada, não são troféus embora possa parecer que sim. Servem-me para transmitir uma mensagem a quem encontra os corpos delas, mas essas mensagens ainda não foram entendidas. Nunca ninguém sequer se aproximou de mim desconfiando que me pertence o histórico de mulheres mortas, algumas sem língua, todas sem dois dedos.
Ela já esteve perto do desmaio que lhe antevi. Abrandei e ela recuperou o suficiente para que eu pudesse tornar a investir. Faço-lhe um golpe fundo na palma do pé direito – ela é dextra e é este o seu pé forte. Não poderia andar, mesmo que conseguisse escapar. Está perto o momento em que a poderei soltar. Ela soçobrará e não precisarei de usar a força. Aproximo o bisturi da virilha. Ela não percebe o que estou a fazer, talvez esperasse uma morte diferente. Faço um corte fundo em cima da artéria femoral. O sangue jorra com demasiada força para que consiga estancá-lo. Ela desmaia perante a visão do sangue, mais do que pelo efeito da dor. No ar, o cheiro… sempre o cheiro. Depois do suor, é o cheiro do sangue que me activa. A morte virá depressa, mas o cheiro continuará a pairar por muito tempo. No fundo é isso que me interessa: que o cheiro perdure.

 

A seguir vem o trabalho ingrato. É preciso tirar daqui o corpo, limpá-lo, levá-lo até um sítio onde não demore muito a ser encontrado. Calculo que a esta hora já andem à procura dela. Não sei que idade tem, não sei nada sobre ela. Sei que estava no sítio errado à hora errada, como acontece sempre nestes casos. Para mim, foi precisamente o contrário; foi como se encontrasse um tesouro.

Arrasto-a até ao regato. Entretanto já anoiteceu e a única luz que há é a da lua em quarto crescente, quase cheia. Limpo-a com cuidado, sem me preocupar demasiado. Só quero que se perceba que não foi violada, que houve cuidado, apesar da violência da morte que lhe causei. Embrulho-a num lençol e carrego-a de volta à carrinha. Volto à cabana para guardar o que restou deste idílio e para sentir de novo o cheiro que ainda paira no ar. O odor férreo do sangue sobrepõe-se a todos os outros. Hei-de demorar muito a limpar tudo, mas isso será tarefa para amanhã. Hoje preciso de entregá-la a quem a procura. Talvez seja a minha forma de mitigar o mal que fiz, de procurar um resquício de redenção. Talvez seja a minha maneira de dizer ao mundo que, apesar de tudo, este é o meu modo de amar, de me entregar e de ser eu.

 

[Este texto foi publicado na Papel. Recupero-o hoje para trazer de volta os contos que fui publicando por aqui. À terça-feira, daqui em diante.]

 

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Coração nas mãos

05.11.13

Vocês sabem: a minha praia é a ficção. Aquilo que me move são as histórias a que dou vida através de palavras. É por estas histórias que anseio e, quando uma me aterra no colo, não descanso enquanto não a ponho a respirar. Andava com saudades (e o meu marido sempre a perguntar, Quando é que voltas a publicar contos no blog?). É hoje. Logo, mais ao final da tarde, quando o ambiente começar a sossegar, chega aqui um conto. Talvez já o tenham lido. Recupero-o porque tenho com ele uma relação para a vida: foi o conto que mais prazer me deu a escrever e é o conto (dos meus, bem entendido - porque há por aí muita gente a escrever muito melhor do que eu [Olá, João Tordo; olá, Nuno Amado; olá, Nuno Camarneiro; olá, Afonso Cruz, só para citar alguns!]) que mais gozo me dá, enquanto leitora. O meu preferido, se quiserem. Daqui em diante, à terça à tarde, um pé fora da realidade, com o coração nas mãos.

 

[Retomo o título da minha rubrica na Papel porque é mesmo isso: escrevo com o coração nas mãos, a dar ordem para que as palavras se alinhem e ganhem vida própria. Noutras vidas que não a minha, embora a minha esteja sempre lá.]

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