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Frente & Verso - como a crise passa pós nós

07.11.13

Verso (o texto da Margarida)

 

Verso

 

Quando a crise começou, mesmo a sério – portanto, em 2009 – eu não vivia em Portugal. Na altura estava no Brasil, a assistir a tudo de fora. Na altura, sempre que falava para cá, diziam-me para eu não voltar. “Na nossa área não há trabalho”. Fiz os planos nessa perspectiva: vinha cá, defendia a minha tese de mestrado, regressava ao final de dois meses e ficava por lá [I wish!].

 

Regressei a Lisboa, duas semanas depois fui chamada para uma entrevista e no dia seguinte à defesa da minha tese comecei a trabalhar. Passei quase quatro anos no mesmo lugar, com direito a um ou dois aumentos – nada de especial, é certo, mas mostrava-me que não podíamos estar assim tão mal. Fazia as minhas duas viagens por ano – é mentira. Houve anos em que fiz cinco – e conseguia aguentar-me.

Os impostos aumentaram, o meu rendimento disponível baixou e eu continuei a complementar o meu salário com trabalhos de free-lancer. Ainda hoje o faço. Há semanas em que trabalho doze horas por dia…é uma seca? É. Mas estou sempre focada. E por isso continuei a fazer as minhas duas ou três viagens por ano – é um vício, sim. Enquanto as conseguisse fazer estava tudo bem.

 

Este ano o cenário começou a ficar um pouco mais negro. Mais subida de impostos e eu a passar a ganhar o mesmo que em 2010. E de repente, uma nova proposta. Que resolvi aceitar, não apenas por razões monetárias. No início do ano fiz uma das viagens da minha vida, durante a nossa lua de mel, e tinha outra grande programada. Não deu, porque entretanto tivemos uma quantidade de revés na nossa vida. No entanto, acabou-se o ‘sufoco’ mensal das contas. Do salário que parecia que estava a acabar ainda o mês ia a meio. E sim, para mim jantar fora, comprar uma peça de roupa ou marcar uma viagem podem fazer, felizmente, parte das ‘despesas fixas’.

 

Por exemplo, este mês vamos a lugares muito giros. Estamos a planear coisas ainda mais giras no próximo mês. Se a crise nos afetou? Sim, claro. Mas somos uns abençoados, e felizmente a vida foi-nos ajudando a dar a volta. E sim, não temos filhos – o que é uma grande diferença no orçamento – e podemos fazer das viagens e dos passeios as nossas prioridades. Se podemos cortar nelas? Sim, mas preferimos cortar em jantares fora ou em concertos do que em viagens. Porque elas nos fazem querer mais e ser mais. Na verdade, fazem-nos abrir os olhos para todo um mundo que não nos chega a este pequeno Portugal, queiramos ou não.

 

Abre-nos horizontes, dá-nos tempos, dá-nos sabedoria, dá-nos vontade de ser melhor. Por isso, sim, o nosso orçamento anual vai continuar a contemplar viagens nas despesas fixas assim nos permita a vida. E graças a Deus – e ao nosso muito trabalho, não tenho dúvidas – temos sido uns afortunados.

 

[A frente sobre este tema, aqui.]

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1 comentário

De Rita Varela a 07.11.2013 às 16:51

Gosto tanto do Frente & Verso, ainda bem que continuaram com as crónicas :)

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