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Jane Doe

22.05.13

Eu sou chata. Passo aí 80% do meu tempo em casa. Saio de manhã para ir levar os miúdos, regresso. Nalguns dias saio à hora de almoço para ir ao ginásio. Na maioria dos dias só volto a sair ao fim do dia para ir buscar os miúdos. Passo muitos fins-de-semana de pijama, em casa, pois claro. Vou uma a duas vezes por mês almoçar com amigas. Ninguém me visita em casa e eu não visito ninguém. A minha amiga mais chegada, aquela a quem sei que posso recorrer sempre, seja por que for, foi-se embora daqui e agora vemo-nos aí uma vez por mês. Passamos dias e dias sem falar, cada uma na sua vida, com a distância medida em quilómetros a intrometer-se entre nós. Tenho muitos conhecidos. Amigos, pouquíssimos. E não tenho tema de conversa. Já não tenho tema de conversa. Os meus passatempos têm sempre palavras. Leio muito, passeio na net, escrevo menos do que queria. Quero muito cumprir o meu sonho, mas tem sido muito difícil. Como li uma vez alguém dizer, as mulheres só se tornam boas escritoras quando os filhos saem de casa. Na altura em que li percebi mas duvidei. Não quis acreditar. Agora cada vez mais acredito que sim, que quem o disse tinha toda a razão. Os meus dias são sempre iguais. Perdoem-me se não falo do que vejo, do que compro, do que como. Não vejo muito, compro praticamente nada (quer dizer, poderia dizer-vos coisas acerca das minhas listas de supermercado, mas não vejo nenhum interesse nisso), cozinho quase sempre o mesmo, de vez em quando lá me ponho a inventar, mas nada de muito significativo. Escrevo. Menos do que queria, mas escrevo o que posso. Não dependo só do tempo que tenho livre. Dependo, acima de tudo, da inspiração. Há dias em que as palavras são o IC19 na época das duas faixas: engarrafam-se, atropelam-se e custam a circular. Noutros, menos frequentes, saem escorreitas, como se abrisse uma torneira e as palavras simplesmente fluíssem. Às vezes só custa começar.

Sou uma solitária. Gosto de estar sozinha, mas canso-me de estar sozinha. Eu nem sequer gosto muito de mim, portanto não tenho muitas razões para achar excelente a ideia da solidão. Passam-se dias em que as minhas conversas se resumem a diálogos sobre refeições e cocós do meu filho (com a minha mãe, ao telefone e ao vivo, quando o deixo lá e quando o vou buscar) e a comentários no facebook. Uma tristeza, eu sei. Não me queixo. Quer dizer, queixo-me de vez em quando. Hoje, por exemplo, fui convidada para o Pink Day na Rua Castilho. Recusei o convite: tenho uma sessão de esclarecimento na escola da miúda mas ainda nem sei se consigo ir - sei que não tenho vontade nenhuma de ir e isso por si só é capaz de resolver o assunto. A minha vida social é, não um unicórnio, mas um lince ibérico: lá vai aparecendo, mas está em vias de extinção.
Tenho tudo para ser feliz: marido, filhos, família, uma casa, um cérebro. Só não tenho muitos assuntos interessantes de que falar porque, lá está, vivo na minha pequena bolha onde não se passa praticamente nada.

 

Era isto, está feito o desabafo. Ide em paz, vá.


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30 comentários

De Rosa Cueca a 22.05.2013 às 16:30

As pessoas preocupam-se mais em tentar mostrar ao mundo o quão bem resolvidas são, o quão in, os sítios onde foram, o que comeram, como os filhos andam sempre impecáveis e nem ranho no nariz têm, etc e tal.
Não é suposto a vida ser sempre uma bolha, até porque há dias em que até nós estamos fartas de nós e da nossa vida-sempre-a-mesma, mas também acho que há muito boa gente a parecer bem mais do que é.
Isso ou tiram notas do rabinho, porque não há economia familiar que aguenta tanta ida ao sushi da moda.

De Lénia Rufino a 22.05.2013 às 17:11

Não tem tanto que ver com "o que eles falam", tem mais a ver com o que eu falo, sabes? É que às vezes olho para o blog e aborreço-me de morte: livros, dieta, filmes e pouco mais... É só isso.

Ah, e sou mãe orgulhosa de dois crianços que de vez em quando se ranhosam, não usam golas-babete, não vestem roupa de ir à missa, faço o meu próprio sushi (e mesmo assim é coisa para fazer uma vez a cada dois meses, que aquilo fica caríssimo só em peixe... e somos só dois a comer!)

Por outro lado, não me chateia nada assumir estas minhas crises "bipolares" (qualquer dia tenho proposta de patrocínio de psiquiatras!!). Porque a vida - a minha, pelo menos - é mais cinzenta do que cor-de-rosa. Dramas da vida real, olha!

De . a 22.05.2013 às 16:46

Não concordo nada com o que escreves neste texto. Primeiro que tudo, o que para aí mais há são pessoas que vêem, vão, passeiam e compram (compram muito!) e depois as conversas são totalmente vazias de conteúdo. Sinceramente, achas mesmo que quem tem dinheiro para comprar e tem uma vida social muito activa é mais interessante do que um "eremita"? não creio...

Tu podes passar imenso tempo sozinha e estares a ressentires-te da solidão...isso é diferente! Mas pode estar nas tuas mãos mudar algumas coisas nessa tua vida. Porque não recebes amigos em casa? E não frequentas a casa deles? Será que não os tens mesmo ou simplesmente deixas andar? Se calhar podes tentar dar um primeiro passo. Com um casal com filhos por exemplo, com quem sintas afinidade e de modo que os miudos também possam brincar. Porque não tentas? Não é preciso gastar dinheiro com isso. Cada um faz umas coisas para comer e junatam-se a conversar. Apenas uma sugestão.

Depois há aqui uma questão muito importante. O importante é aquilo que a pessoa É. Aquilo que sente. Aquilo que pensa. Aquilo que é o seu património espiritual e intelectual... e isso tem muito, mas mesmo muito pouco a ver com a vida social que se tem ou com aquilo que se faz! Isso tem a ver com SER!

Tenho a certeza que tens um SER muito interessante dentro de ti. Não és chata. Estás é aborrecida e és uma pessoa um pouquinho complicada com tendência para o bipolar (isto não é uma crítica, mas apenas uma constação de laguém que te lê há anos, mesmo sem te conhecer pessoalmente - um dia há-de acontecer - , e que já conseguiu perceber isso). Sou igual, ou muito parecida, e consigo compreender esses altos e baixos, essas inconstâncias de temperamento, de humor e de gostos e vontades. Sei do que falo. Sei o que sentes.

Tem calma, respira fundo, centra-te no que és, deixa de olhar para a vidas dos outros (é dos outros, quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro, não esqueças...) e procura a tranquilidade. Se achas que tens que mudar alguma coisa. Muda o que estiver ao teu alcance. Centra-te no que tens de bom e agradece.

Beijinhos e felicidades :)

De Lénia Rufino a 22.05.2013 às 17:08

Não tenho muito a esconder, acho eu...! ;)

Bom, podia ir parágrafo a parágrafo, rebater e refutar. Não o vou fazer. Vou apenas dizer que misturei vida social com assunto de conversa porque, parece-me, quem não passa a vida enfiado em casa terá sempre mais acerca do que falar. Repara: eu falo naquilo que são os meus temas, da minha vida - os livros, por exemplo. Só que de vez em quando passo os olhos aqui pelo blog e até a mim isto faz bocejar... A coisa não passa muito de livros, filmes, dieta e pouco mais... porque não se passa mais nada. Era só isto. Se calhar foi só uma crise de TPM (muito provável!)...

(Obrigada pelo comentário! ;))

De . a 22.05.2013 às 18:03

A mim não me faz bocejar ou não viria aqui. É a vida real. E, já agora, o tema livros é dos que mais me interessa.

De . a 22.05.2013 às 16:54

por favor, não te sintas minimamente obrigada a publicar o comentário. Era só para ti, mesmo. não era para mostrar ao mundo.

De Ana Matias a 22.05.2013 às 17:24

Estava aqui a pensar no teu texto e nos comentários, resolvi deixar uma palavra porque às vezes também me identifico um bocadinho com o que escreveste.

Mas resumindo antes de começar, acho que de vez em quando todos nos aborrecemos um bocadinho da vida que levamos. Até quem tem uma vida movimentada, cheia de amigos e actividades, acredito às vezes se cansem e odeiem.
Mas também acho que depois vem um dia em que acordas bem disposta e te lembras que tens a vida que criaste para ti. E principalmente lembraste do motivo porque a escolheste!

(Ou então acordas com uma ideia brilhante para apimentar o dia a dia, também pode ser!)

Enfim, é um ponto de vista, um beijinho

De Lénia Rufino a 22.05.2013 às 17:28

(O meu problema é não conter estes momentos maus e falar nele, da mesma maneira que falo dos bons...)

No geral, está tudo conforme tem que estar. Depois, há uns dias (por causa da chuva, da TPM ou do que for) que a coisa não corre assim tão bem... Mas amanhã já voltou tudo ao normal e a programação segue como de costume.

;)

De Ana Matias a 22.05.2013 às 17:32

Claro que sim :)

Até porque quero continuar a vir aqui procurar filmes alternativos e livros novos para ler!

De Rita a 22.05.2013 às 17:26

É tão bom ler coisas que podiam ter sido escritas por nós, ou percebermos que não somos as únicas a sermos ermitas. Eu podia ter escrito isto, tirando a parte dos filhos e da dieta. Identifiquei-me tanto com este post. Obrigada por teres escrito o que eu sinto. :)

De Lénia Rufino a 22.05.2013 às 17:29

Não é assim uma coisa que seja muito fixe partilhar mas pronto... paciência. É um facto: aqui há dias maus. ;)

De Ana Elias a 22.05.2013 às 17:26

Gosto muito deste texto. É de tudo o que li de ti até hoje o que mais gosto. Gosto de ler coisas que vêm de dentro.

De Ana a 22.05.2013 às 17:36

É também por textos como este que gosto de vir aqui. Identifiquei-me muito. Assumo o meu "destino de ouriço", como diria o Lobo Antunes, a minha vida simples é talvez desinteressante para alguns, mas vou gostando dela.

De C a 22.05.2013 às 17:37

Gosto tanto de ler o que escreve! Sou uma miúda (quase quase a fazer 23 anos), vivi muito pouco, e sei que sei ainda menos! Mas isto, estas palavras, o blog no todo... É bom, é sempre bom mesmo quando não o é. É a vida.

De Anónimo a 22.05.2013 às 18:51

Olá!

Esta é a primeiríssima vez que comento um post apesar de seguir o seu blog e outros há bastante tempo... e escrevo porque tenho muitos dias em que me sinto assim e creio que o problema (a maior parte das vezes) sou eu! Sou eu que não telefono, não questiono, não tomo iniciativa e não convido ninguém... e assim se passam os dias... por isso toca a tomar mais vezes a iniciativa... porque entre o hoje sou eu, amanhã é ela, a vida social só pode melhorar!!!

Quanto à sua escrita: é simplesmente fenomenal!!! ADORO ler o seu blog e seja independentemente do assunto: português, livros, dietas, "crianços", alentejo ou outros. Venha daí o livro!!!

E mais! Sou igualmente fiel seguidora dos chamados baby-blogs (pois também sou um mãe muito babada), mas não penso que sejam mais interessantes pelas golas, compras e festas... são apenas diferentes!

De ann.dorinha a 22.05.2013 às 19:13

Oh mulher... se tu passas 80% do tempo em casa eu cá posso dizer que passo 80% do tempo na escola. E a minha vida é esta casa-escola , escola-casa e pouco mais.
Nestes últimos tempos tenho pensado nisso, tenho sentido que não tenho feito muito por mim, por aquilo que gosto de fazer além do trabalho. O blogue também reflete um bocadinho isso e não, não tenho escrito nada de interessante lá no meu espaço...

Mas tu tens uma coisa muito boa, és extrovertida e comunicativa. E mesmo que no fundo sejas tão tímida quanto eu, não transpareces isso e tens facilidade em socializar, coisa que a mim me falta. E lá está, escreveste isto, sem pudores ou vergonhas e escreveste-o muito bem. Se as tuas leituras, a tua visão de vida, os teus sonhos, a vontade em perseguir esses sonhos e até a comida do dia a dia não faz de ti uma pessoa interessante, então não sei o que fará porque a Lénia que eu conheço é esta que hoje escreveste, sem floreados.
Compreendo tudo o que disseste e percebo o desabafo mas não aceito uma coisa, não és chata. ;)
Love you girl!

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