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O lado egoísta da solidão

20.12.11
Sempre fui uma solitária. Nunca me assustou o estar sozinha, o passar tempo só comigo. Aprendi a gerir a solidão no adn de filha única com pais trabalhadores. Houve muitas alturas em que não tive outra escolha a não ser estar sozinha. Cresci habituada ao silêncio, a vivê-lo sem dramas. Foi por isso que sempre quis viver sozinha. Vivi assim quatro anos. E houve, nestes quatros anos de solidão, muitos momentos de puro egoísmo.

Meti na cabeça que haveria de passar um Natal e uma passagem de ano sozinha em casa. Lareira acesa, um filme na TV, telefone desligado e toda a paz do mundo. Nunca me ocorreu que houvesse quem queria estar comigo. Os meus pais. Nunca me ocorreu que, para eles, eu era a peça essencial nessas noites tradicionais. Para mim, o que interessava era o cumprimento dos meus desejos.

Em 2004, com o meu avô doente, não fomos passar o Natal ao Alentejo, como fizemos toda a vida. Jantámos com os meus avós e, perto das 23h, vim para casa, sozinha. E achei que aquilo era o máximo: estar sozinha naquela noite em que milhões de pessoas estavam com os seus. Calculo agora que os meus pais tenham sofrido um bocadinho nessa noite. Nunca lhes perguntei.

Acho - mas não tenho a certeza - que passei uma passagem de ano sozinha (a de 2004, também). Não posso jurar acerca desta. Menos grave, contudo.

E isto porquê? Porque hoje dei por mim a pensar como seria se a minha filha quisesse passar um Natal sozinha, absolutamente sozinha em casa. A mágoa que isso seria para nós, pais. O quanto gostaríamos de a ter sempre connosco, a mimar os nossos momentos. Mesmo quando ela for adulta, será sempre a peça fundamental (ela e o irmão, bem entendido).

Em 2004 só vi o meu lado. Nunca imaginei sequer que pudesse haver duas pessoas tristes por eu não estar com elas. Estive simplesmente feliz por estar sozinha. Num momento tão egoísta que agora perdeu todo o significado e passou a ser só mais uma das parvoíces inconscientes que eu fiz.

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14 comentários

De Patrícia Teodoro a 20.12.2011 às 06:44

Como eu digo sempre só nos começamos a crticar enquanto pessoas a partir do momento em que sabemos o que não queremos que façam connosco e por isso quando somos pais entendemos e não queremos de forma nenhuma que os nossos filhos nos façam os que nós fizémos. beijos e feliz Natal

De Ana a 20.12.2011 às 09:26

Só sabemos ser filhos quando passamos a ser pais.

De Kyla a 20.12.2011 às 10:45

Eu detesto solidão. Sempre vivi rodeada de pessoas e estar sozinha, deixa-me insegura...
Passar estas quadras sozinha, só mesmo se tivesse de ser! E seria muito triste, uma noite muito longa, cheia de pensamentos pouco felizes.
Temos tempo de os passar mais sós...quando os nossos entes queridos forem desaparecendo.
Eu por exemplo este Natal, será o 1º de muitos sem o meu querido Pai que, infelizmente, foi embora há 10 meses :( Estarei sem dúvida mais só :(

Quando somos jovens, magoamos muito os nossos pais e fazêmo-lo cheias de nós, cheias de razões(pensamos nós, naquela altura) e só mais tarde é que percebemos o quão parvas eram aquelas atitudes.

Agora que somos mães, é que percebemos o mal que fizemos.
Li num livro do pediatra Brazelton uma coisa do tipo: "Não esperem agradecimento/reconhecimento dos vossos filhos, até que eles sejam pais."

De Frutinha a 20.12.2011 às 11:09

Todos nos fizemos dessas e de outras estupidezes, porque é da idade, faz parte.
Hoje com 27 anos e apesar de saber que ainda tenho muito que aprender e muito que mudar, olho para tras e vejo que ja tive momentos bem egoistas tambem, momentos menos bons por pura estupidez minha. Lá está.. faz parte.

De Cláudia a 20.12.2011 às 11:23

as primeiras palavras tomei-as como se fossem minhas. Eu adoro estar sozinha. não sei de onde veio esta predilecção porque tenho uma irmã e fui tia bastante cedo, mas estar no silêncio absoluto na companhia de mim própria continua a ser uma das minhas actividades preferidas. mas compreendo este texto porque faço muitas vezes esse esforço de não deixar os outros sós, porque sei que os magoaria. Mas compreendo que, no teu caso, essa espécie de mágoa magoe um pouco mais.

De Inês a 20.12.2011 às 11:24

Ia comentar, mas a frase da Ana diz tudo.
Fazemos coisas muito parvas, quando somos mais novos... faz parte...

De Me a 20.12.2011 às 13:12

Tenho de te dizer que foi mesmo parvo.

E se é verdade que fazemos parvoíces quando somos novos, em 2004 já tinhas idade para ter mais juizinho e valorizar o que de melhor há na vida: ter ao nosso lado quem nos ama.

Beijo grande babe!

(quando é que apareces???)

De Marianne a 20.12.2011 às 13:16

Me, isto não foi parvo. Foi todo um atestado de estupidez! Já passou...

Next week apareço. Ando às aranhas com o Natal: encomendas, compotas, bolachas, bombons... o normal.

:P

De Nikki a 20.12.2011 às 14:10

(quase) Todos os supostos disparates e manias dos nossos pais passam a fazer absoluto sentido a partir do momento em que também somos pais.

E tenho a certeza que a partir de então (a maioria de nós) passamos a ser melhores filhos.

De Miss 'S' a 20.12.2011 às 15:25

Também sou filha única de pais trabalhadores e sei o que é estar sozinha. Sei o que é divertir-me sozinha para quebrar o silêncio e outras vezes, sozinha, aproveitar esse mesmo silêncio. Também sei o que é ser solitária. O que importa é que hoje, sabes que erraste e pensas em não voltar a ser egoísta na solidão :)

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